Uma homenagem que combina com um aniversário
A escritora Lygia Bojunga foi escolhida a Personalidade Literária da 68ª edição do Prêmio Jabuti. A homenagem será entregue na cerimônia de 27 de outubro, uma terça-feira, na Sala São Paulo, na capital paulista. A escolha foi divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do prêmio, e coincide com os 50 anos de A Bolsa Amarela, publicado em 1976 e, para muita gente, o livro mais emblemático da autora.
Na mesma noite serão anunciados os vencedores das 23 categorias e o Livro do Ano. A cerimônia terá apresentação dos jornalistas Michelle Loreto e Fabrício Battaglini e transmissão ao vivo pelo canal da CBL no YouTube.
Lygia nasceu em Pelotas (RS), em 1932, e hoje tem 94 anos. Segundo as reportagens sobre a homenagem, ela enviou à CBL uma carta manuscrita e uma mensagem gravada. Na carta, reagiu à notícia com uma frase curta: “Que belo incentivo este!”.
O que a CBL e o Jabuti dizem sobre a escolha
O curador do Prêmio Jabuti, Hubert Alquéres, resumiu o peso da autora em um comunicado da CBL: “Lygia Bojunga mudou a maneira como a literatura brasileira olha para a infância.” Para ele, homenageá-la nos 50 anos de A Bolsa Amarela é celebrar a capacidade da literatura de permanecer viva no tempo.
A presidente da CBL, Sevani Matos, afirmou que “Sua obra faz parte da formação de gerações de leitores no Brasil”. Nos três anos anteriores, a mesma honraria foi para autores que também escreveram para crianças e jovens: Pedro Bandeira (2023), Marina Colasanti (2024) e Ana Maria Machado (2025).
Uma trajetória em datas
Lygia começou como atriz no rádio e no teatro antes de se dedicar à literatura. Os marcos que as fontes consultadas registram:
- 1972: estreia com Os Colegas, livro que venceu um concurso de literatura infantil do Instituto Nacional do Livro.
- 1973: primeiro Jabuti, justamente com Os Colegas.
- 1976: publicação de A Bolsa Amarela.
- 1982: Prêmio Hans Christian Andersen, concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY). Ela foi a primeira escritora de fora do eixo Europa-Estados Unidos a receber a distinção.
- 1993: segundo Jabuti, com Fazendo Ana Paz.
- 1997: terceiro Jabuti, com Seis Vezes Lucas.
- 2002: criação da Casa Lygia Bojunga, editora dedicada aos próprios livros, inaugurada com Retratos de Carolina.
- 2004: Prêmio Memorial Astrid Lindgren (ALMA), na Suécia.
Depois da editora, a autora também fundou a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, voltada ao livro, à leitura e à formação de leitores. Entre os outros títulos citados nas reportagens estão Angélica, A Casa da Madrinha, Corda Bamba, O Sofá Estampado e Tchau.
Por que A Bolsa Amarela segue viva
O livro acompanha Raquel, uma menina de dez anos que guarda numa bolsa amarela três vontades que a família não aprova: crescer, ser menino e ser escritora. Raquel começa escrevendo cartas a um leitor imaginário, o André, e depois a uma amiga, a Lorelai. Quando a irmã mais velha descobre as cartas, ela passa a escrever histórias cujos personagens carregam os desejos que precisa esconder.
A mistura de realidade e fantasia, contada do ponto de vista da criança e com humor, é o que a crítica costuma destacar. O livro trata de identidade, gênero, repressão familiar, autonomia e expressão criativa. Ele saiu durante a ditadura militar, e a publicação Rota Cult observa que a obra questiona o silenciamento imposto às crianças, em especial às meninas, sem recorrer a um discurso direto.
Cinco décadas depois, o texto continua presente em escolas, projetos de incentivo à leitura e estantes de família. A permanência ajuda a explicar por que uma obra escrita nos anos 1970 ainda dialoga com debates atuais.
O que esperar da noite de 27 de outubro
A homenagem a Lygia divide a cerimônia com a entrega dos prêmios das 23 categorias. A edição já tinha chamado atenção pelo número de inscritos e pela nova categoria digital, assunto que o Estupendo cobriu na divulgação dos finalistas.
Para quem não conhece a autora, a data é um bom pretexto. A Bolsa Amarela segue sendo a porta de entrada mais citada para a obra dela, e a lista de livros acima mostra que há muito o que ler depois. Para quem já a conhece, a homenagem lembra que a literatura infantojuvenil brasileira tem em Lygia Bojunga uma das referências que ajudaram a definir o que esse tipo de livro pode dizer a crianças e jovens.
Os vencedores do Jabuti serão conhecidos na terça-feira, 27 de outubro. A transmissão pelo YouTube da CBL permite acompanhar a cerimônia de qualquer lugar do país.