Antônio Carlos Gomes Belchior nasceu em Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946. Nesta segunda-feira, o cantor e compositor completaria 80 anos. A data coincide com outro marco: Alucinação, seu segundo álbum de estúdio, lançado em 1976, faz 50 anos em 2026.
Do Ceará a São Paulo
Segundo o jornal DGABC, Belchior cantava em feiras na infância, aprendeu piano e atuou como poeta e repentista. Passou por um seminário e chegou a entrar na faculdade de Medicina, mas largou o curso para se dedicar à música. A Wikipédia registra que, em 1971, ele venceu o IV Festival Universitário da MPB, da TV Tupi, com a canção “Na Hora do Almoço”, e que se mudou para São Paulo em 1972.
Nos anos 1970, integrou a geração de compositores cearenses que ganhou projeção nacional, ao lado de Fagner e Ednardo. Misturava MPB, rock e influências da música nordestina, e suas letras tratavam de questões sociais, políticas e existenciais, inclusive as inquietações da geração que cresceu durante a ditadura militar.
O disco de 1976
Alucinação saiu em junho de 1976 pela PolyGram, no selo Philips. Foi gravado no estúdio de 16 canais da Phonogram, no Rio de Janeiro, com produção e mixagem de Marco Mazzola. O disco dura 37 minutos e 25 segundos, e todas as músicas são de Belchior. A Wikipédia o classifica entre os gêneros MPB, blues, folk contemporâneo, country, baião e rock.
O lado A traz, nesta ordem, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Velha Roupa Colorida”, “Como Nossos Pais”, “Sujeito de Sorte” e “Como o Diabo Gosta”. O lado B tem “Alucinação”, “Não Leve Flores”, “A Palo Seco”, “Fotografia 3 X 4” e “Antes do Fim”, esta com menos de um minuto.
No estúdio, Belchior tocou violão ao lado de Antenor Gandra, que também assumiu guitarra e viola caipira. José Roberto Bertrami fez os arranjos e tocou piano, órgão e sintetizadores. A capa tem foto de Januário Garcia, com efeito de solarização.
Sobre o nome do álbum, Belchior disse à revista Pop, em 1977, que viver importa mais do que pensar a vida, e que ele via nisso uma forma de delírio absoluto, segundo a Wikipédia.
Vendas e recepção
O disco vendeu cerca de 30 mil cópias no primeiro mês, impulsionado pelos sucessos, e passou de 500 mil no total. A crítica da época se dividiu. Na Folha de S.Paulo, Renato de Moraes fez uma avaliação favorável, elogiando as letras narrativas longas, na linha de Bob Dylan, e a mistura de blues, country, baião e rock. No O Globo, Nelson Motta também gostou, mas Sérgio Cabral deu uma estrela de cinco e falou em desperdício de talento.
Com o tempo, a avaliação mudou. A Wikipédia reúne análises que chamam o álbum de revolucionário dentro da MPB e de clássico instantâneo, e a Veja o descreveu como o disco fundamental do cantor e um dos maiores da música brasileira. A pesquisadora da USP Josely Teixeira Carlos afirma que ele sintetiza o sentimento de uma geração de jovens do interior vivendo nas grandes cidades.
Elis e as canções que ficaram
Duas faixas de Alucinação ganharam ainda mais alcance na voz de Elis Regina. Em 1975, no show Falso Brilhante, ela cantou “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”. A Veja aponta que a primeira chegou a um público ainda maior por causa dela. Na lista da Rolling Stone Brasil de 2009 com as 100 maiores músicas brasileiras, “Como Nossos Pais” aparece em 43º lugar.
O sumiço e os últimos anos
A trajetória teve um final discreto. Em 2007, a família comunicou que ele havia desaparecido, deixando em São Paulo a carreira e seus pertences. Entre 2009 e 2017, viveu em cidades do Rio Grande do Sul e no Uruguai, muitas vezes hospedado por amigos e fãs. Belchior morreu em 30 de abril de 2017, em Santa Cruz do Sul (RS), aos 70 anos, vítima de aneurisma da aorta. Foi velado em Sobral e enterrado em Fortaleza, como desejava.
Homenagens em 2026
O DGABC informa que o documentário Alucinação está em exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A filha caçula do artista, a cantora Vannick Belchior, mantém parte do repertório do pai e interpreta composições dele no álbum de estreia, Meu Nome é Cem. Os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti são autores do livro Viver é Melhor que Sonhar.
Por onde começar
Para quem nunca ouviu o cantor, o caminho natural é o próprio Alucinação, que cabe em pouco mais de meia hora e reúne as músicas mais conhecidas dele. Depois, a discografia segue com Coração Selvagem (1977), Era uma Vez um Homem e Seu Tempo (1979), Paraíso (1982) e Melodrama (1987), entre outros títulos citados pela Wikipédia.