O funk brasileiro está em cartaz em um dos principais encontros do mercado mundial de música. Desde 21 de outubro, o WOMEX 2026, a 32ª edição da feira The World Music Expo, que acontece em Las Palmas de Gran Canaria, na Espanha, recebe a exposição imersiva Baile Funk Invasion, apresentada pela Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) e criada pelo festival Favela Sounds. A mostra percorre mais de três décadas do gênero nas periferias brasileiras e é voltada ao público europeu.
O que o visitante encontra
Segundo a revista Kdea 360, a exposição ocupa 24 metros quadrados dentro do mercado do WOMEX e tem acesso restrito a participantes credenciados, entre eles mais de 3 mil agentes do mercado musical. O texto divulga duas datas diferentes para o encerramento (24 e 25 de outubro), então vale conferir a programação oficial do evento.
O percurso é dividido em três etapas: o nascimento e os primeiros anos do funk no Rio de Janeiro, a expansão pelo país como identidade cultural nacional e o alcance global do gênero, com perspectivas de futuro. O material combina telas, acervo de arquivo, depoimentos, vídeos e manipulações gráficas, além de um mapa do Brasil que mostra os subgêneros e as variações regionais do funk.
Duas experiências interativas completam a visita:
- “Let’s dance passinho”: a dançarina e coreógrafa Arielle Macedo, que trabalha com Anitta há mais de dez anos, ensina uma coreografia inédita, feita sobre uma faixa original do DJ e produtor Rafinha MPC. Os visitantes são filmados em uma tela vertical e recebem o vídeo por QR code para publicar nas redes.
- Oficina de MPC: Rafinha MPC deixa o público improvisar batidas e intervenções sonoras em uma MPC, equipamento central para DJs de funk.
A direção criativa e a curadoria são de Guilherme Tavares e Amanda Bittar. A parte visual é do artista Dnego Justino, com edições de Ada Souza e motion design de Thiago “Penahx” Macedo.
Um debate sobre o futuro do gênero
Nesta quinta-feira, 22 de outubro, das 16h15 às 17h45 no horário de Brasília, a programação inclui o debate “Is Baile Funk here to stay?”, transmitido ao vivo pela RBL Radio (Rádio Banda Larga), da Espanha, em rbl.media. Participam Deize Tigrona, figura central do funk carioca que hoje mora em Marselha, na França, Roberto Gevaerd, diretor de Gestão e Inovação da Embratur, e Allexia Galvão, supervisora de Economia Criativa do órgão. A mediação é de Guilherme Tavares.
O que dizem os organizadores
Amanda Bittar, diretora-geral do Favela Sounds e cocuradora da mostra, afirmou: “Com Baile Funk Invasion queremos apresentar a história do Funk e suas diversas vertentes ao público europeu”. Já Guilherme Tavares, diretor artístico do festival e cocurador, disse: “O funk já atravessou as fronteiras do Brasil e está entre as principais referências de DJs e produtores”.
Para Roberto Gevaerd, diretor de Gestão e Inovação da Embratur, “por muitos anos, o Samba foi o grande atrativo cultural brasileiro e cumpriu trajetória similar à do Funk”.
De onde vem o funk carioca
A Wikipédia lembra que as raízes do gênero estão nos anos 1970, nos bailes da pesada do Canecão, comandados pelos DJs Big Boy e Ademir Lemos, que tocavam soul e funk. Nos anos 1980, o som ficou eletrônico, com baterias eletrônicas como a Roland TR-808, e o Miami bass foi uma influência importante. O disco Funk Brasil, lançado pela Polygram em 1989, é considerado um marco do funk carioca em disco.
A trajetória teve obstáculos. Em 1999, os bailes foram brevemente proibidos após um confronto que matou três adolescentes, e em 2000 uma lei regulamentou os eventos no Rio. Em 2009, a Assembleia Legislativa do estado definiu o funk como movimento cultural e musical de caráter popular. Fora do país, o gênero foi sucesso de verão na Europa em 2005, e a cantora M.I.A. incorporou seus ritmos em trabalhos como Arular. Em 2019, Madonna e Anitta lançaram uma versão de “Faz Gostoso”, e Drake gravou uma versão de um sucesso de Kevin o Chris.
Por que importa
A presença dentro do mercado do WOMEX coloca o funk em um ambiente de negócios, e não apenas de pista. A própria fala de Gevaerd compara o momento do gênero à trajetória do samba como atrativo cultural. A pergunta que dá nome ao debate, se o baile funk veio para ficar, reflete esse momento: o gênero que já foi alvo de proibição no país é agora apresentado, com apoio oficial de órgão federal de promoção turística, como produto cultural de exportação.