Furnas Fundas: A Fábula Gótica Brasileira Que Transforma Eleição Municipal em Horror
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Furnas Fundas: A Fábula Gótica Brasileira Que Transforma Eleição Municipal em Horror

Dirigido por Beto Marquez e nos cinemas desde 17 de setembro, o filme usa fantasia e sátira política para contar a história de uma cidade dividida por uma eleição enquanto um mal antigo desperta.

Editor

Uma Pequena Cidade, Uma Grande Metáfora

Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira chegou aos cinemas do país na quinta-feira, 17 de setembro, trazendo uma mistura pouco comum de comédia, fantasia, mistério e terror para falar sobre um tema bem atual: a polarização política. Dirigido por Beto Marquez, o filme acompanha uma pequena cidade fictícia — que dá nome ao longa — mergulhada em uma eleição municipal tão acirrada que coloca famílias, amigos e vizinhos uns contra os outros.

Enquanto a disputa pelo poder local consome a cidade, uma força sombria adormecida há gerações começa a despertar. À margem de tudo isso está Bartira e sua improvável gangue de deslocados — pessoas que a cidade prefere ignorar —, que se tornam, sem querer, a última linha de defesa quando a violência da campanha eleitoral rompe o equilíbrio e liberta o mal que estava escondido.

Ficha Técnica

O roteiro é assinado pela dupla Antonia Baudouin e Reinaldo Moraes, que já haviam trabalhado com Marquez no longa anterior do diretor, Maior que o Mundo — filme pelo qual Marquez foi indicado a Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. A fotografia é de Paulo Vainer, e a produção é da Midnight Japa, com distribuição da Capuri Filmes.

O elenco reúne nomes conhecidos da TV e do cinema nacional, como Eriberto Leão, Otávio Müller, Natália Lage, Gabriela Dias, Elisa Volpatto e Johnnas Oliva. A classificação indicativa é de 14 anos.

O longa foi gravado em 2023 na cidade de Olímpia, no interior de São Paulo, e no distrito vizinho de Ribeirão dos Índios, que emprestaram suas ruas e paisagens para compor o universo fictício de Furnas Fundas.

Fantasia Como Ferramenta de Distanciamento

Em entrevista, o diretor Beto Marquez explicou por que optou pela fantasia em vez de um retrato realista da polarização política brasileira: fazer um filme que não seja panfletário nem didático, usando elementos fantásticos, permite criar um afastamento da realidade que ajuda o público a enxergar reflexos da própria sociedade sem se sentir diretamente atacado por um discurso de um lado ou outro.

O produtor Marcus Ozi resumiu o espírito do filme em uma frase: “Às vezes nem sabemos exatamente o que estamos defendendo, mas já sabemos contra quem estamos.” Já Eduardo Rezende, da Capuri Filmes, distribuidora do longa, comentou o momento político que inspirou a história: “A gente vive num momento em que tudo vira lado, tudo vira disputa, e o essencial fica de lado.”

As Referências Por Trás do Roteiro

A narrativa de Furnas Fundas bebe de fontes bem brasileiras. A ideia central de uma cidade pequena que se transforma em um microcosmo de tensões maiores do país remete a Incidente em Antares, romance clássico de Érico Veríssimo que também usa o fantástico — no caso, mortos que se recusam a ser enterrados — para expor as hipocrisias de uma comunidade. O tom satírico do roteiro também dialoga com o traço afiado do cartunista Angeli, conhecido por escancarar contradições da sociedade brasileira com humor ácido, e com a anarquia característica da escrita de Reinaldo Moraes, um dos roteiristas do filme.

Segundo o próprio Marquez, a ideia do longa nasceu durante a pandemia, a partir da percepção de um país cada vez mais interessado em escolher lados do que em enfrentar seus problemas reais — o que motivou a vontade de contar uma história que não fosse sobre partidos específicos, mas sobre comportamento humano diante da divisão.

Reconhecimento em Festivais

Antes de chegar aos cinemas comerciais, Furnas Fundas já havia circulado pelo circuito de festivais, onde recebeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Fantasia no The International Horror Film Hotel, além de uma indicação na categoria de Melhor Roteiro no mesmo evento — um reconhecimento inicial para uma produção que aposta em um gênero pouco frequente no cinema brasileiro comercial.

Por Que Vale Acompanhar

O cinema brasileiro tem historicamente uma relação forte com o realismo social, e é justamente por isso que uma produção nacional que escolhe o caminho da fábula gótica para discutir a polarização eleitoral chama atenção. Ao usar o fantástico como filtro, Furnas Fundas se junta a uma tradição literária que vai de Érico Veríssimo a Angeli, atualizando essa linguagem para um momento em que o debate público brasileiro segue marcado por divisões acirradas. Com um elenco de peso e uma premissa que mistura humor, crítica social e horror, o filme surge como uma aposta diferente em meio às estreias mais convencionais do mês — e pode se tornar um ponto fora da curva na temporada de lançamentos nacionais de 2026.