Festival de Veneza 2026: Woman Unknown Vence o Leão de Ouro Numa Zebra Histórica
🎬 Cinema

Festival de Veneza 2026: Woman Unknown Vence o Leão de Ouro Numa Zebra Histórica

May el-Toukhy se torna a oitava mulher a vencer o principal prêmio da Mostra de Veneza com o drama dinamarquês Woman Unknown, superando favoritos como o sul-coreano Possible Love, de Lee Chang-dong.

Editor

Uma Surpresa na Lagoa

A 83ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, realizada entre 2 e 12 de setembro de 2026 no Lido veneziano, terminou com um resultado que pegou boa parte da crítica de calção. O Leão de Ouro, principal prêmio do festival, foi para Woman Unknown (título original Kvinde Ukendt), da cineasta dinamarquesa May el-Toukhy — uma coprodução entre Dinamarca, Suécia e Letônia.

Até a cerimônia final, a favorita nas apostas da imprensa especializada era outra: Possible Love, do sul-coreano Lee Chang-dong, um dos nomes mais respeitados do cinema asiático e vencedor do Prêmio Fipresci na mostra. A vitória de el-Toukhy foi recebida como a grande zebra da edição.

Do Que Trata o Filme

Woman Unknown acompanha uma jovem empregada doméstica cujo futuro é ameaçado quando vem à tona o relacionamento que ela manteve, durante a Segunda Guerra Mundial, com um soldado alemão. A protagonista é vivida por Mathilde Arcel, que também saiu de Veneza premiada: ela venceu a Copa Volpi de Melhor Atriz pela atuação no longa.

Com essa vitória, May el-Toukhy se torna apenas a oitava diretora mulher a conquistar o Leão de Ouro na história do festival, que existe desde 1932 — um dado que deu à premiação um peso simbólico além do artístico.

Os Outros Vencedores

O júri da Competição Internacional de 2026 foi presidido pela atriz e diretora americana Maggie Gyllenhaal e reuniu nomes como a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, o compositor britânico Daniel Blumberg, o crítico italiano Francesco Casetti, o diretor francês Xavier Giannoli, a cineasta afegã Shahrbanoo Sadat e o veterano Johnnie To, de Hong Kong.

A lista completa de premiados inclui:

  • Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri: Possible Love (Lee Chang-dong)
  • Leão de Prata – Melhor Direção: Ilya Khrzhanovsky, por DAU
  • Copa Volpi – Melhor Ator: John Malkovich, por Wild Horse Nine
  • Copa Volpi – Melhor Atriz: Mathilde Arcel, por Woman Unknown
  • Melhor Roteiro: Coralie Amedeo, Stéphane Brizé e Olivier Gorce, por A Good Little Soldier
  • Prêmio Especial do Júri: NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor
  • Leão do Futuro (Prêmio Luigi De Laurentiis, melhor estreia): House of the Wind, de Auguste Bernard Kouemo Yanghu

O Brasil Também Teve Seu Momento

A presença brasileira em Veneza já havia rendido boas notícias antes da cerimônia principal: o longa London, dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, venceu o Leão Queer, prêmio dedicado a obras que tratam de temas LGBTQIA+, dividindo a honraria com o britânico Queer Edward II.

Por Que Essa Vitória Chama Atenção

Vitórias de zebra em festivais de prestígio costumam gerar dois efeitos opostos: de um lado, reforçam a ideia de que júris de Veneza valorizam obras que fogem do consenso crítico prévio; de outro, alimentam debates sobre os critérios usados para decidir o prêmio mais cobiçado do circuito europeu de cinema autoral, ao lado de Cannes e Berlim.

Para o público brasileiro, o interesse imediato é saber quando Woman Unknown chegará por aqui — algo que costuma depender de distribuidoras especializadas em cinema de arte e de uma eventual passagem por festivais nacionais, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, antes de uma estreia comercial ou em plataformas de streaming voltadas a cinema autoral.

De qualquer forma, o resultado desta edição consolida 2026 como um ano de decisões pouco óbvias nos grandes festivais europeus, com júris dispostos a valorizar narrativas menos badaladas em detrimento dos nomes mais cotados pela crítica internacional.

O Peso de Veneza no Calendário do Cinema Autoral

Ao lado de Cannes e Berlim, Veneza fecha o trio de festivais que mais influencia a temporada de premiações que se estende até o Oscar, no início do ano seguinte. Filmes que passam pela Competição Internacional do Lido costumam aparecer meses depois nas pré-listas de prêmios como Globo de Ouro, BAFTA e nos principais círculos de críticos americanos — o que faz da lista de vencedores de 2026 uma referência para prever boa parte do que vai dominar a conversa sobre cinema de autor nos próximos meses.

Nesse sentido, a vitória de Woman Unknown também reabre um debate recorrente entre programadores e críticos: o de até que ponto júris badalados devem priorizar consenso crítico ou apostar em obras que dividem opiniões, mas trazem abordagens menos vistas em festivais do porte de Veneza. A presença de nomes tão distintos entre si no júri de 2026, unindo veteranos do cinema comercial de Hong Kong e realizadoras de cinema mais experimental, ajuda a explicar por que o resultado final surpreendeu tanta gente.

Para o público brasileiro que acompanha festivais internacionais à distância, o desfecho da edição de 2026 reforça também a importância de acompanhar não só o prêmio principal, mas o conjunto de láureas menores — como o Leão Queer conquistado por London — que costumam funcionar como termômetro de tendências temáticas que chegam ao circuito nacional de festivais e ao streaming meses depois.