Um Magnata do Petróleo Para Tom Cruise
Digger entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 1º de outubro, reunindo Tom Cruise e o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu num projeto que ambos vinham gestando desde 2019, quando se conheceram nos bastidores de Top Gun: Maverick. O longa marca o retorno de Iñárritu ao cinema falado em inglês desde O Regresso, de 2015, e é também a primeira produção a nascer da parceria estratégica entre Cruise e a Warner Bros., firmada há quase dois anos.
No filme, Cruise interpreta Curtis Markson, um ator que atua numa peça satírica chamada “Fossil Fools” no papel do magnata do petróleo Digger Rockwell — um empresário que coloca lucro acima de qualquer preocupação ambiental. Durante os ensaios, Curtis descobre que sua filha desapareceu num voo saindo da Jamaica, e o produtor da peça, Kenny, oferece rastreá-la usando uma rede de inteligência privada, embaralhando ficção e realidade ao longo da trama.
Elenco e Equipe Técnica
Ao lado de Cruise, o elenco reúne Sandra Hüller como Emma, meia-irmã e sócia de negócios de Digger, Riz Ahmed como o cientista Dr. Nirav Ganesh, John Goodman como o presidente dos Estados Unidos (personagem chamado Compson) e Jesse Plemons como Kenny, o produtor que compra os direitos da peça. O roteiro é assinado pelo próprio Iñárritu junto com Alexander Dinelaris Jr., Nicolás Giacobone e Sabina Berman, com história adicional de Jez Butterworth.
A fotografia ficou a cargo de Emmanuel Lubezki, parceiro de longa data de Iñárritu e vencedor do Oscar por O Regresso, que optou por filmar em 35mm com o formato VistaVision, usando uma câmera projetada originalmente em 1954. A trilha sonora é assinada por Cosmo Sheldrake, em sua primeira incursão no cinema. O filme tem 2h09 de duração e classificação indicativa 15 anos no Reino Unido.
Uma Sátira Sobre Catástrofe Ambiental
Dentro da peça encenada pelo protagonista, a trama ficcional de Digger Rockwell escala rapidamente: uma plataforma de gelo do tamanho do estado americano de Maryland se desprende rumo à Europa depois de uma explosão num campo de extração na Groenlândia, provocando inundações em cidades europeias. O presidente americano ordena ataques nucleares contra a geleira, o que só agrava o desastre. No desfecho da peça dentro do filme, Digger se refugia numa plataforma offshore e, desesperado, acaba se lançando ao oceano.
É só ao final que Curtis descobre a verdadeira motivação de Kenny: o produtor é sobrinho de Digger Rockwell na vida real e comprou os direitos da história para transformar a tragédia em catarse através da comédia. A peça termina com aplausos do público fictício, a filha de Curtis é encontrada em segurança, e os dois saem do teatro para encarar uma cidade real já tomada por drones, robôs e soldados — um contraste deliberado entre a sátira dentro da ficção e um mundo real igualmente desfigurado.
O Que a Crítica Está Dizendo
A recepção internacional ficou dividida de forma acentuada. No agregador Rotten Tomatoes, Digger soma 50% de aprovação entre 222 críticas, com nota média de 6,1 em 10. No Metacritic, a média é de 45 em 100 com base em 56 avaliações, classificação descrita pela plataforma como “avaliações mistas ou médias”.
Entre as críticas mais duras, o crítico Peter Bradshaw, do jornal britânico The Guardian, descreveu o filme como “exasperantemente superficial, laborioso e autocongratulatório”, dando-lhe 2 de 5 estrelas. Já Robbie Collin, do Daily Telegraph, foi na direção oposta, chamando a obra de “uma sátira sinuosa e arrogante” e concedendo 4 de 5 estrelas. A crítica Amy Nicholson, do Los Angeles Times, destacou a atuação de Cruise como “o papel mais arriscado em eras” de sua carreira.
Estreia Escalonada ao Redor do Mundo
Digger teve sua première mundial em Londres, na tradicional Leicester Square, em 22 de setembro. A partir daí, o lançamento comercial se deu de forma escalonada: o México recebeu o filme em 1º de outubro, mesma data da estreia brasileira, enquanto Reino Unido e Estados Unidos só viram o longa chegar aos cinemas em 2 de outubro. A distribuição no Brasil, assim como nos demais territórios, ficou a cargo da Warner Bros.
Por Que Vale Acompanhar
Depois de sucessos de crítica recentes como Pecadores e Batalha Após Batalha, a Warner Bros. vem apostando em produções de autor como carro-chefe de seu catálogo, e Digger entra nesse pacote como a primeira aposta de Tom Cruise fora do circuito de blockbusters de ação que consagrou sua carreira nas últimas décadas. O fato de a crítica ter se dividido tão abertamente — entre acusações de rasidão e elogios ao risco assumido por Cruise — tende a alimentar justamente o tipo de debate que costuma sustentar a vida de um filme além da estreia nos cinemas.
Para o público brasileiro, que viu Digger chegar às salas na mesma data da première americana, o filme representa também uma oportunidade pouco comum: acompanhar em tempo real uma obra de um diretor vencedor do Oscar dividindo opiniões no mundo todo, sem o atraso que normalmente separa lançamentos internacionais de suas estreias no país.